Arte, Cultura e Comunicação

segunda-feira, outubro 01, 2012

O INVERNO DA ALMA:QUANDO O CORAÇÃO SE RECUSA A ESQUECER A PRIMAVERA PERDIDA.

 O INVERNO DA ALMA:QUANDO O CORAÇÃO SE RECUSA A ESQUECER A PRIMAVERA PERDIDA.

 

Esquecer um grande amor é o mesmo que apagar uma história. Mas como apagar  uma história quando ela foi vivida de forma tão intensa ignorando os aspectos que pareciam tão perfeitos para apenas encantar os olhos do mundo?

Quando uma história de amor foge aos certos padrões de um folhetim preestabelecido, ela se torna inesquecível e por mais que alguém tente apaga-la, subsistirá na lembrança de seus autores que sentiram o frio ou o calor que lhes incendiavam os corações.

O coração de quem escreve esses versos é um campo de batalha desolado, onde a razão tenta desesperadamente silenciar a paixão, mas acaba derrotada pela força indomável da saudade. 

Viver esse amor impedido é carregar no peito uma divisão insuportável: de um lado, o desejo urgente de esquecer, de anular as lembranças e de "nascer de novo pra vida" para estancar a dor diária de um fim que parece um definhamento lento; do outro, a rendição visceral a cada detalhe da intimidade que foi perdida.

Desejar reviver cada momento não é um mero capricho nostálgico, mas uma fome de sobrevivência emocional. 

Para esse coração, lembrar do suor do corpo quente, do sussurro a sós, do sabor da boca e do abraço que aliviava o cansaço é, paradoxalmente, a única forma de continuar sentindo o gosto da vida. Cada recordação física funciona como um oxigênio raro em meio ao sufocamento de uma primavera que perdeu as cores.

No fundo, o autor habita o paradoxo mais cruel do amor reprimido: ele quer fugir como a borboleta no vento, mas sabe que a ausência do outro transformou sua existência num inverno perpétuo. 

Desejar voltar no tempo e reaver cada instante é a prova de que, mesmo ferido e amarrado aos laços do passado, o seu peito continua batendo no compasso de um sentimento que não escolheu sentir, mas que também não aprendeu a apagar.



 Quisera te esquecer


Quisera romper meu fracasso
desvencilhar-me do laço
que hoje me prende a você
Quisera poder te esquecer
e assim anular as lembranças
Quisera não ter esperanças
e esquecer o que juntos vivemos
Se eu pudesse não pensar
no momento que tivemos
pronunciaria um adeus e não te veria jamais
Ah! Se eu fosse capaz
de te esquecer para sempre
tirar você da minha mente
e nascer de novo pra vida
Porém a palavra despedida
é algo que não sei dizer
Só sei que estou a morrer
a cada dia que passa
pois te perder me embaraça
e me traz um triste fim
Será que viver é assim?
Sem mais sentir teu beijo
que matava o meu desejo
e me fazia sorrir?
Sem mais sentir teu abraço
que me aliviava o cansaço
e não te deixava partir?
Sem sentir o suor de teu corpo quente
que ficava efervescente
ao esfregar-se no meu?
Sem o sussurro de tua voz
quando estávamos a sós
e tudo era você e eu?
Sem beber a saliva louca
que brotava da tua boca
e me dizia o sabor?
Sem sentir a água fria
que dos nossos corpos escorria
após horas de amor?
Sem o olhar de despedida
que deixava em mim a vida
desabrochando em flor?
Esquecer tudo isso eu quisera
e fugir como o pássaro que voa
Sair por aí a toa
como a borboleta no vento a bailar
Mas sem você, a vida não é mais primavera
e eu continuo a te amar!!!

Tony Caroll.

A impossibilidade de esquecer alguém que se ama 


Este poema de Tony Caroll traduz de forma visceral a angústia da impossibilidade de esquecer alguém que se ama, revelando o conflito doloroso entre o desejo racional de rompimento e a dependência emocional que mantém o eu-lírico preso ao passado.

O Desejo Infrutífero de Ruptura 

Os versos iniciais estabelecem um anseio obsessivo pela liberdade. O eu-lírico clama por "romper meu fracasso" e "desvencilhar-me do laço", evidenciando que a ligação com o outro é vivenciada não apenas como afeto, mas como uma prisão e uma derrota pessoal. 

O uso repetido da modalidade condicional ("Quisera", "Se eu pudesse", "Ah! Se eu fosse capaz") sublinham a impotência: o sujeito quer apagar as lembranças, anular a esperança e dizer um adeus definitivo, mas reconhece de antemão a própria incapacidade de fazê-lo.

A Memória Sensorial e o Luto da Intimidade 

A partir da metade, o poema mergulha numa longa e intensa enumeração de lembranças físicas e sensoriais. O eu-lírico recorda o beijo que matava o desejo, o abraço que aliviava o cansaço, o suor do corpo quente, o sussurro a sós, o sabor da boca e a água fria escorrendo após as horas de amor. 

Essa torrente de memórias corporais funciona como uma tortura mansa: ao mesmo tempo em que descreve o que perdeu, o sujeito reanima a paixão que tenta sufocar, mostrando que a ausência do outro desorganiza completamente sua existência.

A Rendição Final ao Amor 

O desfecho do poema resolve o conflito em uma rendição melancólica. Embora o eu-lírico flerte com a ideia de fugir levemente como um pássaro ou uma borboleta ao vento, a realidade impõe-se de maneira definitiva: "sem você, a vida não é mais primavera / e eu continuo a te amar!!!". 

A tentativa de esquecimento fracassa porque o afeto é estrutural; a partida do outro levou consigo a estação da vida, restando apenas a constatação dolorosa de um amor que sobrevive à revelia da própria vontade.

 

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