UMA LÁGRIMA POR UM CÁLICE DE VINHO E A INTERPRETAÇÃO DE UMA DOR MUITO VERDADEIRA.
UMA LÁGRIMA POR UM CÁLICE DE VINHO
Depois de “um moço e um violão dentro de um vagão de trem” e assegurando que muitas das vezes nos tornamos personagens, protagonistas ou coadjuvantes na história de alguém, quero aqui relatar mais um fato que ocorreu durante o enterro de minha avó.
Lembro-me que naquela tarde tão triste aparecera no cemitério de Ricardo de Albuquerque no Rj, um homem estranho vindo não sei de onde. A principio julguei que fosse algum parente distante ; mas, logo ficou bem claro que realmente tratava-se de um desconhecido que de um momento para o outro tornou-se o alvo da atenção de todos pois,ao abrir-se o caixão para as últimas homenagens é que aconteceu o inusitado.
Um desconhecido no cemitério e a interpretação de uma dor muito verdadeira.
Aquele homem de meia idade,barbudo usando roupas meio esfarrapadas e com um aspecto nada agradável aproximou-se,olhou o rosto sublime de minha avó e então debulhou-se em lágrimas...Isso sem se importar com alguém ou alguma coisa que pudesse desfeiteá-lo ali naquele momento.
O interessante é que ele fazia questão de se aproximar a todo instante do caixão e, a cada vez que isso acontecia, aumentava o seu pranto dizendo palavras impregnadas de muita dor e desilusão e outras tantas que, com tamanha eloquência dignificavam a figura de minha avó demonstrando que ambos tivessem sido bons amigos.
Percebi em seu semblante, uma dor muito verdadeira e, como os demais, comecei a indagar com gestos quem realmente era aquele homem que todos ignoravam conhecer.
Afinal quem era aquele homem?
A atitude dele começou a intrigar a todos presentes que também interrogando-se uns aos outros só asseguravam que realmente tratava-se de um desconhecido e não possuía nem mesmo laços de amizade com algum dos que estavam ali.
Uma coisa que observei é que aquele homem tão triste parecia se perder todas as vezes que olhava o rosto de minha avó e então desesperado procurava entre as pessoas, alguém que pudesse ampará-lo enquanto todos fugiam.
E as cenas que se repetiam chegavam a ser hilárias e até provocar em alguns uma vontade imensa de entregarem-se a um riso contido mas tão aparente.
Um bom ator em seu anonimato.
Fiquei sabendo depois que isso é algo comum em alguns enterros,quando homens desconhecidos e sedentos de álcool,choram o morto na intenção de comoverem os parentes para que lhe ofereçam um cálice de bebida.
Eu nunca aceitei isso, mas nutri em meu peito, certa admiração por aquele homem que; sem nenhum tipo de pudor fez o que muitos não têm coragem de fazer,
“Chorar por um desconhecido qualquer e conseguir com a sua belíssima interpretação desanuviar um pouco a dor daquele momento”.
Assim somos todos nós; quando protagonizamos uma cena qualquer nessa vida, nos tornamos personagens ou meros espectadores de alguém,as vezes sem o direito de rir ou oferecer os nossos aplausos.
Tony Caroll.





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